quarta-feira, 23 de março de 2011

Guerra do petróleo.

Uma avaria nas telecomunicações do jornal impediu que este artigo fosse hoje para paginação do Semanário Transmontano. Fica aqui.

Não é a primeira guerra do petróleo, nem vai ser a última.

Mais uma guerra do petróleo. Na Líbia ou noutro local era inevitável; do Médio Oriente à região do mar Cáspio, de África à América Latina, onde houver petróleo e instabilidade política há palco para a intervenção das grandes potências. E quando não há instabilidade cria-se, é esse o papel dos serviços secretos, aproveitar as disputas étnicas e religiosas, as divergências políticas locais, e até reivindicações populares justas, para instaurar regimes que orientem, controlando a posse dos recursos energéticos
.
Até meados do século XX, o petróleo era das grandes companhias petrolíferas que mandavam nos países onde estavam instaladas. Com o advento do nacionalismo nos países produtores, após a 2ª Guerra Mundial, as condições de exploração alteraram-se. No Irão, ocupado pelos Aliados durante a guerra, (já por causa do petróleo) e que tinham substituído o Xá pelo filho Mohammad Reza Pahlevi; o primeiro-ministro Mossadegh nacionalizou os poços da BP. Veio a ser deposto e preso em 1953, ficando o “Imperador” colaboracionista no poder, até à Revolução Iraniana de 1979. Mas tinha sido o início de um grande movimento nacionalista na região. Onde o petróleo não foi nacionalizado os países produtores viriam a conseguir dividir ao meio com as petrolíferas, os lucros da sua riqueza.
Várias crises aconteceram desde a nacionalização do Canal do Suez até à Guerra do Iraque, levando ao aumento da matéria-prima mais cobiçada. Doravante o estado de conflito será permanente. A globalização, a emergência económica de países muito populosos, que querem legitimamente as mesmas condições de vida dos países ricos, vai levar no médio prazo ao esgotamento das reservas mundiais de petróleo. Dois terços dessas reservas estão no médio oriente. As grandes potências disputam as zonas, países e governos, para poderem garantir o fluxo de abastecimento.
 A abstenção da China e da Rússia no Conselho de Segurança, sobre a fly-zone na Líbia, tem mais a ver com equilíbrios geoestratégicos, e a perda da influência da América no mar Cáspio, que com qualquer ditador ou os direitos humanos injectados nas notícias.
Tinha-se pedido uma declaração “clara” (como afirmava a NATO) da ONU, para impor a zona de exclusão aérea sobre a Líbia, saiu um texto absurdo que dá para tudo e para nada, com os dirigentes internacionais a fazer papel de tolos tentando interpretar a confusão que subscreveram.
Putin compara a agressão da coligação com as cruzadas medievais, a União Africana pede o fim dos ataques, na Liga Árabe o secretário-geral Amr Moussa diz, “o que nós queremos é a protecção dos civis e não o bombardeamento de outros civis”. O certo é que a chamada “comunidade internacional” não se entende sobre o que estão a fazer nem como fazer, e muito menos sobre as consequências políticas futuras. Kadhafi é muito menos perigoso que a “Rua Árabe”, sabe-o Amr Moussa que gostava de governar o Egipto, sabem os americanos que querem dar a aparência de terem ido ali só fazer uma perninha, e sabe a NATO, que não pode pôr as botas em território líbio, pois corre o risco de unir o mundo árabe contra o Ocidente; não os dirigentes, mas a “rua”, cuja revolta nenhuma invasão ocidental é capaz de dominar, mantendo ao mesmo tempo a produção petrolífera.
A aviação da coligação não consegue resolver a contenda sem originar um massacre de civis várias vezes superior à ameaça que diziam existir. Ou invadem o território (provocando os mesmos “efeitos colaterais”) ou tentam negociar um compromisso com as partes. Será o que eu já escrevi em Fevereiro, o desmembramento da Líbia. Uma solução à maneira da Coreia, do Kosovo, da Geórgia, do Sudão e outros. A história repete-se, sempre que as grandes potências entram em conflitos locais ampliam esses conflitos, e neste caso do petróleo vai ser para continuar; perigosamente para o Mundo, pois há grandes potências com interesses antagónicos nas mesmas regiões.

2 comentários:

A. Viegas disse...

Esta guerra tem mais impacto na nossa vida que qualquer PEC.

Carlos Mesquita disse...

Sem dúvida, a dependência energética portuguesa pesa sobremaneira nas importações. Há que tomar medidas para deminuir essa sujeição. Há vento, há rios, há sol, tudo subaproveitado, e a eficiência energética que ainda é "deficiente".
As guerras, não as podemos evitar - mas escusávamos de as apoiar.