Houve um tempo antes do 25 de Abril – estive lá. Essa época é difícil de descrever, quem não a vivenciou não “sente” esse tempo. Os filmes a preto e branco dão cor em demasia e faltam sempre os cheiros. Os cheiros a medo e perseguição, a ignorância, a solidão, a desemprego e trabalho forçado, a velho gasto e puto sem futuro. A ditadura conta-se, o passado conta-se, viver a experiência do obscurantismo (como da liberdade) é único.
O 24 de Abril era descalço e ranhoso, beato e servil, traiçoeiro pidesco e o raio que o parta! Tinha mofo o 24 de Abril. Bolor entranhado no Estado, nas repartições públicas, nas polícias, na corrupção generalizada dos ministérios às fronteiras.
Fugia-se da miséria dizendo-se simpatizante do regime. Compravam-se empregos, chegando a dar-se um quinhão do ordenado a quem lhe arranjava um posto no Estado. Um mundo de corrupção e compadrio, de submissão institucionalizada.
Hoje, vale a pena ler o texto de José Pacheco Pereira no Público; é sobre o que cheirou a bafio no 25 de Abril. Bajulação, ignorância, sabujice…há uma casta que quer sobreviver bem, como no 24 de Abril.
Logo, ao fim da tarde, vou tentar ver a estreia do filme de João Pinto Nogueira, “Outra Forma de Luta”. Vou apontar o meu espelho retrovisor para uma outra forma de ver o nosso tempo. Desenjoa.
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