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domingo, 8 de junho de 2014

Bloco de Esquerda in – satisfeito.

Ana Drago Bloco de Esquerda. Jun.2014

Ana Drago dá hoje uma entrevista ao Público, recomenda-se.

Sobre a liderança do Bloco de Esquerda, Ana Drago afirma que o problema do Bloco não é um problema de liderança, ou de comunicação. É um problema de estratégia. Há uma espécie de auto-suficiência. Temos o nosso espaço de representação e isso chega. Para o desafio político com que o Bloco nasceu, todos compreenderão que isso é insuficiente. (Sublinhado meu)

Enfim, se o problema é de estratégia é igualmente da liderança; concordando que a questão do BE põe-se em termos da sua utilidade política, vale a pena ler a análise de Ana Drago (clicar AQUI).

A entrevista é elucidativa do caminho do Bloco de Esquerda e também indicativa do destino de Ana Drago.

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Abstenção promove bloco central.

Eleições Europeias.Mai.2014
 
O ministro Pires de Lima diz que os partidos do governo têm “condições para vencer legislativas”.

Com os resultados das “europeias”; a maior derrota da direita em eleições e a não descolagem do Partido Socialista, quer PSD/CDS quer o PS, podem vir a obter uma vitória nas legislativas.

Arménio Carlos perguntava, “o que falta” ao presidente da República para convocar eleições antecipadas? Falta uma vitória expressiva do PS nestas europeias, afinal o contra-senso da campanha feita à esquerda do centro-esquerda. O reforço da CDU (apenas isso) não viabiliza qualquer solução governativa que seja alternativa ao governo de direita. Não se vê o PCP a apoiar qualquer governo e não há mais nada.

A abstenção e o voto de protesto (que não são a mesma coisa) aponta para a inevitabilidade de um entendimento ao centro, um governo do bloco central, (o pântano) – caso não existam novas dinâmicas políticas até às legislativas, provocadas por novas lideranças ou novas forças políticas com peso à esquerda.

Ao impasse nacional vai responder a fatal divergência política instalada, com estas eleições, na União Europeia. Os movimentos internos nas instituições agora eleitas irão determinar as brechas decisivas na Zona Euro. Poderá haver saídas ordenadas do Euro? Ou agora serão mais complicadas?

A Europa - que os povos da Europa não querem - vai aquecer.

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segunda-feira, 24 de março de 2014

França. Extrema-direita consolida vitórias.

Extrema-direita elege presidente  de câmara. Mar.2014

A Frente Nacional de Marine Le Pen, que até agora “não existia” no poder local francês, conquistou a Câmara de Hénin-Beaumont, já na primeira volta das eleições autárquicas.

Mais; Com uma abstenção que terá chegado pelo menos a 38,5%, sete candidatos do partido de extrema-direita de Marine Le Pen estão à frente nas contagens iniciais dos votos da primeira volta das eleições municipais em França.

A extrema-direita, consolida com vitórias nas autárquicas a sua implantação. Le Pen, que viu sondagens (as primeiras em Outubro de 2013) darem-lhe a vitória para o Parlamento Europeu (essas com 24% contra 22 da UMP e 19 do PS) já não é apenas uma advertência para os socialistas e conservadores franceses; continua a subir nas intenções de voto.

Não se sabe se a mudança de imagem que Marine Le Pen tenta fazer, de uma extrema-direita xenófoba para uma direita patriótica e republicana, consegue maior aprovação ou se são as próprias ideias ultra-conservadoras que têm agora mais aceitação.

O descontentamento com a gestão de Hollande e a direita tradicional, a falta de uma esquerda com projecto aceite como viável e a rejeição por muitos franceses, dos ditames das instituições europeias, fortalece o populismo e a extrema-direita.

Ser entre os idosos e os operários que a extrema-direita se reforça em França, é um caso de estudo para os “teóricos da esquerda”. Talvez por a esquerda passar muito tempo à cata da teoria a aplicar e demorar a arregaçar as mangas para bulir, seja uma causa para isto se passar.

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Isabel do Carmo. A grande volta que a esquerda não dá.

oclarinet.blogspot.com - Dar a volta (manolo75).Jan.2014
A esquerda tem que engolir elefantes ou mesmo dinossauros.

Por Isabel do Carmo

O manifesto 3D tem incomodado muita gente e nomeadamente uma certa direita. Uma direita cínica, displicente, dizendo-se pragmática, que não é conservadora no sentido tradicional, que não acredita em nada, nem nela própria. Contraditoriamente é muito firme sob o ponto de vista ideológico, sendo que essa ideologia é a base estrutural na qual se baseia o sistema financeiro económico que nos domina.

Perturbando-se pois com o manifesto 3D, o que só o dignifica, resolveu denegrir toda a esquerda, no sentido actual e no sentido histórico, dando-a por morta e enterrada. Em relação a Portugal, a porta da respeitabilidade dos consideráveis só a abre ao PS se este entrar em compromisso com a direita, isto é, se em próximas eleições legislativas o PS ficar numa posição que o leve a acordos governamentais ou parlamentares com o PSD/CDS. Esta seria uma grande desgraça para o nosso país. Teríamos a continuação da mesma política actual um pouco mais adocicada, mantendo o emaranhado de compromissos na Europa e em Portugal. Ou seja, o status quo.

Historicamente, a esquerda ou que como tal se designava, tem de facto páginas muito negras no seu passado. E muito mau será se aqueles que hoje se consideram de esquerda não proclamem tantas vezes quantas são necessárias que repudiam e denunciam as várias formas de estalinismo, para usar uma designação genérica que abrange muito mais do que uma só criatura. Tal como se passa com a Inquisição e seus continuadores na Igreja Católica, não há “contexto histórico” que os absolva. Podemos pois falar claro sobre o presente e o passado. E poderemos então ver de que lado funcionou de facto a esquerda depois de se sentar desse lado na assembleia durante o período da Revolução Francesa.

Foi a esquerda que lutou contra a escravatura, foi a esquerda (as mulheres e alguns homens) que lutaram pelos direitos das mulheres, foi a esquerda que descreveu as condições miseráveis dos trabalhadores durante a Revolução Industrial (Flora Tristan em França e em Inglaterra, Engels em Inglaterra), foi a esquerda que pôs em romance as diferenças de classes e a revolta (Victor Hugo e tantos outros), foi a esquerda que lutou pelas 8 horas de trabalho e depois pelo “weekend”. Foi a esquerda (partido Trabalhista na Grã-Bretanha) que criou o primeiro Serviço Nacional de Saúde (a lei de Bismark era apenas de “caixas” para quem trabalhava), foi a esquerda que organizou a resistência ao nazismo nos países ocupados, foi a esquerda que lutou pela independência das colónias, foi a esquerda que lutou contra o apartheid (só agora é que são todos admiradores do Mandela). Foi a esquerda que lutou contra a ditadura em Portugal, foi a esquerda que derrubou as ditaduras da América Latina.
Quando hoje alguns de nós nos sentimos motivados para apelar à unidade da esquerda é antes de mais uma questão ética.

Não somos nós que inventamos, são números oficiais que nos mostram que um quarto da população portuguesa está em estado de pobreza e que trezentos mil portugueses da população activa não têm trabalho, não virão a ter, não têm subsídio de desemprego ou não virão a ter. O que é que lhes querem fazer? Exterminá-los? Pô-los em fila à porta das instituições de solidariedade? No fundo fazem sentir-lhes que são inúteis, tal como os reformados. Se não existissem era melhor… Na prática, procedem como se eles estivessem a mais na vida. Ou acham que eles podem ser todos “empreendedores” e “subir por mérito”? Ou então que têm todos um QI baixo como disse a 27 de Novembro o Presidente da Câmara de Londres? Estamos num alto (será o máximo?) do desprezo da direita pelos seres humanos.

O momento é de urgência. Por isso a esquerda tem que se deixar de eleitoralismos, de protagonismos, de clubismos identitários.

Tem que engolir elefantes ou mesmo dinossauros. O povo cujo coração bate à esquerda, como é próprio dos corações, é muito mais amplo do que as direções (estimáveis) do B.E., do Livre, do PC, do PS e dos interesses individuais e ou coletivos.

Quando o grupo ad-hoc que promoveu o Manifesto 3D se formou, e depois cresceu para cinco mil, foi exatamente para unir a Esquerda correspondente ao povo da esquerda, não foi para sermos o “rés-do-chão esquerdo” ou o “oitavo esquerdo”. Para nós, que já tivemos tantas vidas seria mais cómodo ficar a ver a banda passar.

A alternativa tem que passar por uma grande volta! E ou a esquerda dá essa volta ou vamos caminhando para a barbárie.

In Jornal Público 19/01/2014


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domingo, 19 de janeiro de 2014

O regresso de Berlusconi. Sintonia Renzi/Forza Itália.

Renzi. Sintonia profunda com Forza Itália de Berlusconi. Jan.2014
Menos esquerda na social-democracia italiana.

“Profunda sintonia com Forza Italia” foram as palavras (textuais), do novo secretário-geral do Partido Democrático (PD) Matteo Renzi, após a reunião, de duas horas e meia, com Sílvio Berlusconi, líder do conservador Forza Italia.

A reunião, que se realizou na sede do PD, e que, também por isso provocou acesa polémica na esquerda do PD, ressuscitou politicamente o condenado pela justiça, Berlusconi. Este deu o seu acordo a reformas no sistema eleitoral que reforçarão os grandes partidos.

A reforma eleitoral (cujo texto Renzi apresenta segunda -feira) será no sentido de garantir o “bipolarismo”; uma prenda aos grandes partidos, “eliminando a chantagem” dos pequenos partidos, cujo poder “impede a governabilidade”, isto segundo Renzi.

Renzi e Berlusconi entenderam-se ainda sobre a reforma do “Título V da Constituição”, relativo à administração do território e sobre a transformação do Senado em uma Câmara autónoma sem vencimentos e sem eleição directa dos seus membros.

A viragem à direita do Partido Democrático promovida pelo novo secretário-geral e a sua equipa de jovens, ainda vai dar que falar. Para já, e apesar das ameaças do líder do governo Enrico Letta (também do PD) em demitir-se, caso os pactos com Berlusconi continuem, Renzi leva o seu plano adiante.

Berlusconi é um condenado e num país normal seria um político acabado.

O novo líder do PD, de “centro-esquerda” e partido historicamente opositor de Berlusconi, acaba de contribuir para a sua reabilitação política.

Não vai ser pacífico nas várias tendências do PD.

(em actualização)

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Como ensinar o seu cão. Treinar um especialista.

Instruir os cães para realizar tarefas é coisa que fazemos desde sempre. Tenho alguma experiência. 

Deve-se começar pelo básico antes de aprofundar as exigências. Por exemplo; um caçador, antes de educar um cachorro a procurar caça, a parar, levantar, ou ir buscar, deve primeiro garantir que o seu cão saiba regressar ao carro, a ordem sua. Ficar perdido na caça de campo com um cão a tiracolo é de caçador aselha.

A minha cadela (de pseudónimo Lua) é de uma raça (retriever do labrador) de fácil adestramento; são guias de cegos, fazem busca e salvamento, são farejadores de drogas, de explosivos, etc. Eu ando a ensinar-lhe política.

Mais precisamente; estou a ensinar-lhe como fazer análise política e proceder em conformidade. Para obter bons resultados iniciei de forma lenta mas incisiva a habilitação de três tarefas; olhar para a direita, olhar para a esquerda, e atirar-se à direita.

oclarinet.blogspot.com - adestrar cães (1) Jul.2013
Analisar a direita

 oclarinet.blogspot.com -  adestrar cães (2) Jul.2013
Analisar a esquerda

 oclarinet.blogspot.com - adestrar cães (3) Jul 2013
Atirar-se à direita

Só depois de ter mecanizado esta primeira etapa - quando perceber (com uma pata às costas) que o objectivo é atirar-se à direita – continuarei com as fases seguintes do curso de acção política.  


Como habitual, no dia 1 de cada mês os posts aqui mais lidos no mês anterior:

09/06 – Prism. É legal sermos espiados na Internet?

23/06 – O PSD ainda existe?

20/06 – A reacção é rápida. Cavaco e Crato estão ligeiros.

13/06 – Fecho da ERT, uma história mal contada.

03/06 – À Abordagem!

21/06 – Brasil. Protestos capturados por golpistas.

19/06 – Peixe-Caracol capturado pela Comissão Europeia.

16/06 – Poiares Maduro como político é mais verde que  Relvas.

11/06 – Erro grego é dar ouvidos à Comissão Europeia.

12/06 – Apoiar empresas é não as afundar. Pagar as dívidas.

(Para ler os artigos clicar no texto a cor)

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Boaventura de Sousa Santos - Terceira carta às Esquerdas.

1ª - 2ª - 3ª Carta às Esquerdas.

( Nota: A 1º e 2ª cartas estão publicadas nos links do fim do texto)

Terceira Carta às Esquerdas. Por Boaventura da Sousa Santos.

Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para refletir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões ficam vinculadas a esse objectivo.

Esta indisponibilidade para a reflexão foi sempre perniciosa e agora é suicida. Por duas razões. A direita tem à sua disposição todos os intelectuais orgânicos do capital financeiro, das associações empresariais, das instituições multilaterais, dos think tanks, dos lobistas, os quais lhe fornecem diariamente dados e interpretações que não são sempre faltos de rigor e sempre interpretam a realidade de modo a levar a água ao seu moinho.

Pelo contrário, as esquerdas estão desprovidas de instrumentos de reflexão abertos aos militantes e, internamente, a reflexão segue a linha estéril das facções. O desequilíbrio entre as esquerdas e a direita no que respeita ao conhecimento estratégico do mundo é hoje maior que nunca.

A segunda razão é que as novas mobilizações e militâncias políticas por causas pertencentes às esquerdas estão a ser feitas sem referência a elas. Proponho duas linhas de reflexão.

Das enormes desigualdades sociais está a emergir uma forte polarização social. Vivemos num tempo que tem algumas semelhanças com o das revoluções democráticas que avassalaram a Europa em 1848. A polarização social era enorme porque o operariado (então uma classe jovem) dependia do trabalho para sobreviver mas (ao contrário dos seus pais e avós) o trabalho não dependia dele, dependia de quem o dava ou retirava a seu bel-prazer, o patrão; se trabalhasse, os salários eram tão baixos e a jornada tão longa que a saúde perigava e a família vivia sempre à beira da fome; se fosse despedido, não tinha qualquer suporte exceto o de alguma economia solidária ou do recurso ao crime.

Não admira que, nessas revoluções as duas bandeiras de luta tenham sido o direito ao trabalho e o direito a uma jornada de trabalho mais curta. 150 anos depois, a situação não é totalmente a mesma, mas as bandeiras continuam a ser actuais. E talvez o sejam hoje mais do que o eram há 30 anos.

As revoluções foram sangrentas e falharam, mas os próprios governos conservadores que se seguiram tiveram de fazer concessões para que a questão social não descambasse em catástrofe

A que distância estamos nós da catástrofe? Por enquanto, a mobilização contra a escandalosa desigualdade social é pacífica e tem um forte pendor moralista – denunciador. Não mete medo ao sistema financeiro – democrático. A direita está preparada para a resposta repressiva a qualquer alteração que se torne ameaçadora.

Quais são os planos das esquerdas? Vão voltar a dividir-se como no passado, umas tomando a posição da repressão e outras a da luta contra a repressão?

A segunda linha de reflexão tem igualmente a ver com as revoluções de 1848 e consiste em saber como voltar a conetar a democracia com as aspirações e as opções dos cidadãos. Das palavras de ordem de 1848, sobressaíam liberalismo e democracia. Liberalismo significava governo republicano, separação entre estado e religião, liberdade de imprensa; democracia significava sufrágio “universal” para os homens.

Neste domínio, muito se avançou nos últimos 150 anos. No entanto, as conquistas têm vindo a ser postas em causa nos últimos 30 anos e nos últimos tempos a democracia mais parece uma casa fechada ocupada por um grupo de extraterrestres que decide democraticamente pelos seus interesses e ditatorialmente pelos interesses das grandes maiorias.

Um regime misto, uma «democratura».

O movimento dos indignados e do occupy recusam a expropriação da democracia e optam por tomar decisões por consenso nas suas assembleias. São loucos ou são sinais das exigências que vêm aí? As esquerdas já terão pensado que se não se sentirem confortáveis com formas de democracia de alta intensidade (no interior dos partidos e na República), esse será o sinal de que devem retirar-se ou refundar-se?

1ª carta às esquerdas:
http://oclarinet.blogspot.com/2011/08/boaventura-de-sousa-santos-carta-as.html

2ª carta às esquerdas:
http://oclarinet.blogspot.com/2011/09/boaventura-de-sousa -santos-segunda.html

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Segunda carta de Boaventura Sousa Santos, às esquerdas.

Esquerdas

Segunda carta às esquerdas – de Boaventura de Sousa Santos

A democracia política pressupõe a existência do Estado. Os problemas que vivemos hoje na Europa mostram que não há democracia europeia porque não há Estado europeu. E porque muitas prerrogativas soberanas foram transferidas para instituições europeias, as democracias nacionais são hoje menos robustas porque os Estados nacionais são pós-soberanos.

Os défices democráticos nacionais e o défice democrático europeu alimentam-se uns dos outros e todos se agravam por, entretanto, as instituições europeias terem decidido transferir para os mercados financeiros parte das prerrogativas transferidas para elas pelos Estados nacionais.

Ao cidadão comum será hoje fácil concluir (lamentavelmente só hoje) que foi uma trama bem urdida para incapacitar os Estados europeus no desempenho das suas funções de protecção dos cidadãos contra riscos coletivos e de promoção do bem-estar social. Esta trama neoliberal tem vindo a ser urdida em todo o mundo, e a Europa só teve o privilégio de ser “tramada” à europeia. Vejamos como aconteceu.

Está em curso um processo global de desorganização do Estado democrático. A organização deste tipo de Estado baseia-se em três funções: a função de confiança, por via da qual o Estado protege os cidadãos contra forças estrangeiras, crimes e riscos coletivos; a função de legitimidade, através da qual o Estado garante a promoção do bem-estar; e a função de acumulação, com a qual o Estado garante a reprodução do capital a troco de recursos (tributação, controle de sectores estratégicos) que lhe permitem desempenhar as duas outras funções.

Os neoliberais pretendem desorganizar o Estado democrático através da inculcação na opinião pública da suposta necessidade de várias transições.

Primeira: da responsabilidade coletiva para a responsabilidade individual. Para os neoliberais, as expectativas da vida dos cidadãos derivam do que eles fazem por si e não do que a sociedade pode fazer por eles. Tem êxito na vida quem toma boas decisões ou tem sorte e fracassa quem toma más decisões ou tem pouca sorte. As condições diferenciadas do nascimento ou do país não devem ser significativamente alteradas pelo Estado.

Segunda: da ação do Estado baseada na tributação para a ação do Estado baseada no crédito. A lógica distributiva da tributação permite ao estado expandir-se à custa dos rendimentos mais altos, o que, segundo os neoliberais, é injusto, enquanto a lógica distributiva do crédito obriga o Estado a conter-se e a pagar o devido a quem lhe empresta. Esta transição garante a asfixia financeira do Estado, a única medida eficaz contra as políticas sociais.

Terceira: do reconhecimento da existência de bens públicos (educação, saúde) e interesses estratégicos (água, telecomunicações, correios) a serem zelados pelo Estado no interesse de todos para a ideia de que cada intervenção do Estado em área potencialmente rentável é uma limitação ilegítima das oportunidades de lucro privado.

Quarta: do princípio da primazia do Estado para o princípio da primazia da sociedade civil e do mercado. O Estado é sempre ineficiente e autoritário. A força coercitiva do Estado é hostil ao consenso e à coordenação dos interesses e limita a liberdade dos empresários que são quem cria riqueza (dos trabalhadores não há menção). A lógica imperativa do governo deve ser substituída na medida do possível pela lógica cooperativa de governança entre interesses sectoriais, entre os quais o Estado.

Quinta: dos direitos sociais para os apoios em situações extremas de pobreza ou incapacidades e para a filantropia.
O Estado social exagerou na solidariedade entre cidadãos e transformou a desigualdade social num mal quando, de facto, é um bem. Entre quem dá esmola e quem a recebe não há igualdade possível, um é sujeito da caridade e o outro é objecto dela.
Perante este perturbador receituário neoliberal, é difícil imaginar que as esquerdas não estejam de acordo sobre o princípio «melhor Estado, sempre; menos Estado nunca» e que disso não tirem consequências.
In Visão

O ClariNet publicou a “primeira” Carta às Esquerdas de Boaventura de Sousa Santos, em 25 de Agosto, para ver clicar AQUI.

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domingo, 4 de setembro de 2011

O Astérix e a rentrée da esquerda.

TácticaSet2011

Para haver rentrée (voltar à cena, como se diz no teatro, e também na política) é necessário ter-se saído de cena. Se o termo rentrée pode ser usado, é precisamente na esquerda “profissionalizada”, saiu de cena há muito, uns para tratamento das mazelas deixadas pelas últimas eleições, outros para fazer férias como manda o contrato de trabalho. Está bem, são direitos, e com direitos já anda demasiada gente a brincar.

O governo, acusado de iletrado por muitos, para além de ter lido o corriqueiro Maquiavel, que qualquer pai violento decorou sem ler, demonstrou conhecer a banda desenhada. A táctica da dupla Passos/Portas foi desenhada por Uderzo e escrita por Goscinny, está num “Astérix”. Os romanos, quando invadiram o agora Reino Unido, encheram-se de levar, até descobrirem o “costume local” da semana-inglesa e do chá das cinco. A partir daí combateram os ingleses todos os dias às cinco horas da tarde e dois dias ao fim-de-semana. E assim ganharam apesar das acusações de falta de fair-play.

O governo Passos/Portas aproveitou bem a ausência da maioria dos trabalhadores portugueses em férias. As medidas mais anti-populares foram postas em prática neste período, e se mais não foram foi por falta de tempo.

Entretanto, a esquerda esteve pachorrentamente a descansar. Tem tempo. Quem não tem tempo são os que estão a perder tudo. Há passos já dados pelo governo, sem oposição capaz e fraca denuncia, que são irreversíveis para a população em geral e para a economia.

A esquerda partidária parece vir com a intenção de aumentar a contestação ao governo, não é o fundamental, essa animosidade popular existe. A oposição às medidas do governo já vem do interior da coligação e do PSD, Ferreira Leite diz da política fiscal que “de justiça tem pouco e de eficácia nada”, e Marques Mendes do ministro das finanças que “parece achar que se relança a economia só com privatizações”.

Portanto, mais frases, mais sound bites, é concurso que não divide a esquerda da direita. O que pode ser útil é saber-se o que a esquerda vai fazer para contrariar o avanço neo-liberal, que forças vai conseguir unificar, que acções propõem empreender. Acusações ouvem-se na mercearia, nos blogues, nos transportes, etc. feitos de borla e genuínos.

O que se exige da esquerda, paga pelos contribuintes para fazer oposição, (vou continuar a repetir isto) é primeiro de tudo, que diga com quem está disponível para acções unitárias contra a política do governo; com todos? Incluindo o Partido Socialista? Eu, que não sou socialista digo já a minha posição; conto com tudo para derrubar este governo, incluindo a mão de Deus do Maradona.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Esquerda não assume responsabilidades na derrota.

ParlamentoJun2011



O conjunto da esquerda perdeu as eleições, não há outra leitura com um parlamento com maioria de direita. A CDU fala em vitória porque tem mais um deputado, em Faro, embora com a maior descida do PS nada tenham capitalizado. O BE, reduzido a metade, ainda acenou com um novo representante por Aveiro. Não há razão para festejos.

A capacidade de influenciar a governação é reduzidíssima, o seu papel na alteração das políticas quase nenhum; as suas propostas programáticas não têm votos na assembleia que as viabilizem.

 Com o PS em reflexão para descobrir o rumo e o líder, a restante esquerda fazia bem em repensar o isolamento em que está. A oposição e uma possível unificação da esquerda, para construir a alternativa ao poder da direita, pressupõem a análise dos equívocos estratégicos cometidos. PCP e BE não aparentam querer assumir quaisquer erros.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Os Verdes que não amadurecem.

No Porto, os gráficos chamam aos meios-tons, meias-tintas. São cores esbatidas, percentagens menores das tintas de origem. O verde é na impressão uma cor secundária (cian+ amarelo). Os Verdes quando dispostos em camada, como na fotografia e no Parlamento, parecem ao olho comum ter identidade própria, quando na verdade resultam de somatórios vários. Os Verdes portugueses são diferentes, por exemplo, dos Verdes alemães, e não é impressão.
Os Verdes alemães, SPV Die Grunen, nascidos em 1980, juntaram ecologistas e pacifistas. Criaram-se na contestação da instalação de mísseis nucleares na Alemanha, pela NATO, em 1979, que foi apoiada pelos dois grandes partidos CDU (democratas - cristãos) e SPD (sociais-democratas). Respondiam à necessidade na sociedade alemã de enquadrar politicamente sectores que vão desde a juventude radical (pós Baader-Meinhof) aos defensores da neutralidade alemã e dos princípios ecológicos.